TÉCNICAS DE TRABALHO
"Estudar
não custa, custa é saber estudar"
Os
alunos confessam frequentes vezes que não sabem estudar, sobretudo em
disciplinas que usam um suporte linguístico mais extenso. E é verdade.
Estudar não é encher o armazém da memória de muitos conhecimentos, porque
um aluno não é uma enciclopédia. Estudar deveria ser, antes de mais, um
actividade agradável, que proporcionasse prazer, como um jogo que se gosta de
jogar. E todos nós sabemos como é difícil ensinar a gostar de aprender!
Depois,
estudar deveria ser uma actividade envolvente, onde todo o ser se empenhe,
todas as faculdades se despertem. Finalmente, estudar deveria ser uma questão
de inteligência.
Para
que aprendas a saber estudar, proponho-te algumas técnicas de trabalho.
TIRAR APONTAMENTOS
A memória é
importante, muito mais a inteligência. Quando se estuda um
assunto é necessário fazer consultas, ler textos e sistematizar.
Uma técnica que muito
pode ajudar é saber tirar apontamentos. O objectivo é fixar
o essencial e evitar a dispersão. Uns bons apontamentos
são mais do que meio caminho para o êxito.
ALGUMAS TÉCNICAS PARA TIRAR APONTAMENTOS
Apontamentos
por palavras-chave
Um texto contém sempre palavras que concentram em si o máximo de
informação. Descobrindo-as, temos nas mãos o essencial.
Vejamos o texto de Óscar Lopes, em Ler e Depois, que
aqui transcrevemos para exemplificar algumas técnicas:
"A
matéria lírica bocagiana está carregada de elementos cujo individualismo,
isto é, cuja consciência de singularidade
pessoal nos salta aos olhos com a mais fácil evidência: ele foi o
primeiro poeta português que por várias vezes se autoretratou,
sobretudo em dois sonetos cujas melhores versões são muito burlescas;
poderia reconstituir-se (e já isso se tem feito) toda
uma sua autobiografia dispersa de amores pudicos e impudicos, de
viagens, combates, misérias, zangas e reconciliações amorosas ou
literárias, riscos de morte, prisão e doenças, sobretudo a longa
doença final; a sua confiança no seu próprio talento e
imortalidade literária, embora algo inspirada por exemplos clássicos,
ocorre com a frequência e a espontaneidade de uma obsessão; à
dialéctica já secular da poesia passional acrescentou todo um por vezes
retórico, mas decerto vivido Inferno do Ciúme, do rábido Ciúme,
cheio de vicissitudes e que doentiamente se compraz em imaginar
a ingratidão, a traição carnal da amada (ao clarão de medonhas
conjecturas/vejo o fantasma da Traição que ignoro); a contrição mais
pungente alterna (como veremos em Garrett) com o comprazimento
na paixão indigna: problemas de responsabilidade (presságios, senso
de um fado, mas também autoresponsabilização é a consciência
de que o nosso temperamento é o nosso fado) - eis alguns
dos ingredientes cuja natureza ou doseamento se apresentam em Bocage
com visos de maior ou menor originalidade. "
As palavras sublinhadas são
consideradas as palavras-chave deste texto.
É claro que esta técnica encerra um sério risco: é necessário subentender as relações entre essas palavras. Na ocasião da leitura, tudo é fácil; mas, passados alguns dias, como a memória é curta, poderá ser necessário voltar a ler o texto inicial.
Apontamentos por pequenas frases
É
uma actividade mais perfeita porque são usadas frases simples e completas.
Quando relidas, compreende-se de imediato o sentido do texto.
EXEMPLIFICAÇÃO
"Bocage retratou a sua vida na lírica. Tratou com alguma originalidade os temas da autovalorização, do Ciúme, da contrição, do prazer na paixão e da responsabilização"
Apontamentos
por resumos
o resumo,
já o conhecemos; é uma actividade muito mais rica do que as anteriores
e consiste em condensar as ideias principais do texto, pondo de lado as
acessórias ou de menos interesse. É um exercício de inteligência,
implicando capacidade de rigor e de escrita. São quatro as normas
principais do resumo:
. supressão: suprimem-se repetições, fórmulas, interjeições, interrogações, exemplos isolados;
.
generalização: substituição de
algumas palavras e ideias por outras mais gerais;
.
selecção: distinguir o essencial
do secundário;
. construção: tem tantos parágrafos quantas as partes em que o texto se divide. A extensão do texto-resumo é normalmente um terço do texto original.
Exemplificação de resumo
"A
poesia de Bocage contém muitos elementos que manifestam a sua
individualidade, de tal maneira que se pode reconstituir a sua biografia
através dos seus poemas.
No campo literário,
destacam-se, entre outros, a autovalorização, os sentimentos de ciúme,
de contrição alternando com o prazer na sensualidade e a problemática
da responsabilização, temas que tratou com alguma originalidade".
Apontamentos
por sínteses
A
síntese é uma espécie de resumo mais cuidado e crítico, pois exige a
condensação do texto, evidenciando as ideias do autor e a sua intenção.
É um texto mais pessoal do que o resumo.
Exemplificação da síntese
"Óscar
Lopes caracteriza, no seu texto, a poesia de Bocage.
Afirma,
em primeiro lugar, que são tantas as marcas autobiográficas que se
poderia reconstituir o percurso acidentado da sua vida com base nos seus
textos. Salienta, depois, a originalidade com que tratou alguns temas: a
quase obsessiva autovalorização, o sentimento do ciúme que parece
doentio, a alternância entre a contrição aguda do mal feito e o
prazer na indigna sensualidade, a consciência da responsabilização
quer pessoal quer como efeito da acção do fado".
Atenção: a síntese é necessária sobretudo para assuntos mais complexos e extensos.
Apontamentos
por esquemas
O esquema é hoje muito usado em quase todos os domínios. É uma actividade
inteligente porque obriga a estruturar os resumos das leituras ou das aulas:
é uma actividade eficaz porque ajuda a memorização. Visualizar um texto
(uma exposição, uma conferência...) é hierarquizar os seus conteúdos,
é compreendê-lo. Há vários tipos de esquemas: gráficos, quadros,
desenhos, mapas...
Por
vezes, há necessidades de recorrer a citações de autores, tão densos e
originais são os seus textos. Nos testes, os alunos têm ainda de
justificar certas afirmações com transcrições de expressões ou palavras
textuais.
- Como transcrever?
- O texto transcrito deve ser sempre colocado entre aspas.
- Deve-se indicar o autor e a obra donde foi retirado o extracto.
Exemplificação
de citação
"A
literatura é filha da terra, como
os Titãs da fábula, e à sua terra se deve deitar para ganhar forças
novas, quando se sente exausta. "
Almeida
Garrett, Frei Luís de Sousa (nota à cena 11, Acta 11)
TIRAR NOTAs
Nas
aulas, durante conferências ou noutras situações, pode ser necessário
tomar notas do que se ouve. Como fazer?
a) Seleccionar apenas o
essencial;
b) Nas aulas, ou quando
se dispõe de um texto, fazer anotações à margem, a lápis,
de forma
bem
legível;
c) Usar abreviaturas e
omitir artigos, para poupar tempo.
É
bom conhecer as principais abreviaturas, embora cada um possa ter um código
pessoal fácil, que permita em pouco tempo tirar muitas notas.
RESUMIR UM TEXTO
Já
se viu que tirar apontamentos por resumos é uma actividade muito útil.
Tratando-se de resumir um pequeno texto, é necessário obedecer a
determinadas normas.
O
resumo de um texto é a redução do mesmo às ideias principais,
abandonando tudo o que é acessório.
Este
tipo de resumo passa por três fases:
trabalho de análise
do texto
trabalho de organização
trabalho de redacção
1. Dividir o texto
original em partes. É um trabalho que exige muita atenção,
2. Resumir cada parte numa
frase curta, de preferência nominal. (Se o texto contém muitos parágrafos,
pode resumir-se cada parágrafo numa pequena frase.)
3. Encontrar as palavras-chave; é à sua volta que o texto se desenvolve.
4. Descobrir os
articuladores do discurso e as relações que estabelecem entre si.
1. Distinguir claramente o
essencial do acessório.
2. Guardar só o
principal.
3. Organizar logicamente
as ideias principais: uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão.
1. Respeitar a ordem por
que o autor apresenta as ideias.
2. Evitar qualquer opinião pessoal ou comentário. O resumo deve ser impessoal.
3. Respeitar a extensão
do resumo: se não forem indicadas as palavras ou as
4. O estilo usado deve ser
claro, objectivo e neutro, evitando-se o uso de recursos expressivos que
possam quebrar a objectividade.
5. Não repetir as
palavras do autor; se for necessário usar uma expressão do
6. Não utilizar o diálogo,
mesmo que o texto original o contenha.
Observe
o resumo, com 38 palavras, deste texto de Eça de Queirós, contendo 173.
-
Fuja, fidalgo, que me perco! Fuja, que o mato e me perco!
Gonçalo
Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito,
pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro,
numa carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim da vinha, junto aos
milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara dentro de um
espigueiro de granito, destelhado e desusado. Nesse esconderijo de rama e de
pedra se alapou o fidalgo da Torre, arquejando. O crepúsculo descera sobre
os campos, e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas.
Afoutado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o serrado
abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas, sobre o
chão mole das chuvadas, até ao muro da Mãe d'Água. De novo estacou,
esfalfado; e, julgando entrever, longe, à orla do arvoredo, uma mancha
clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um
berro ansioso:
-
Ó Ricardo! Ó Manuel! Eh lá, alguém! Vai aí alguém?.. A mancha,
indecisa, fundira na indecisa folhagem.
Eça
de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires
Resumo
Fugindo a uma ameaça (de
José dos Barvais, por não ter cumprido a sua palavra quanto a um
contrato
de arrendamento de terras), Gonçalo salta uma cancela, corre ao longo de
uma vinha, esconde-se num espigueiro, a descansar, e faz nova correria,
gritando pelos moços da lavoura, que julga entrever ao longe no arvoredo da
sua quinta.
(Extraído de "Curso
de Redacção 11" de J. Esteves Rei, Porto Editora)
(Adaptado do manual Aula Viva 11º ano , Porto Editora)